

Lindy Silva @lindianesilva.oficial


Há entrevistas que ultrapassam o universo da imagem para abordar temas que impactam milhares de vidas. Nesta conversa exclusiva com a influenciadora brasileira Lindy Silva, atualmente residente em Portugal, a Perumira abre espaço para um debate necessário sobre preconceito, xenofobia, identidade e respeito, dando voz a uma realidade vivida por muitos brasileiros que decidiram reconstruir a vida em terras portuguesas.
Longe de discursos de confronto, Lindy compartilha a sua experiência com maturidade, sensibilidade e esperança. Ao longo da entrevista, ela reflete sobre os desafios enfrentados por quem, muitas vezes, é julgado pela nacionalidade antes mesmo de ter a oportunidade de demonstrar o seu caráter, a sua competência e os seus valores. Também analisa o impacto emocional da discriminação, a importância da saúde mental, o papel transformador das redes sociais e a necessidade de construir pontes através do diálogo e da empatia.
Com uma mensagem inspiradora, a influenciadora defende que respeito, dignidade e oportunidades jamais deveriam depender de um passaporte ou de um sotaque. O seu compromisso com uma convivência baseada na inclusão demonstra que é possível transformar experiências difíceis em instrumentos de conscientização e mudança.
Nesta entrevista exclusiva para a Perumira, Lindy Silva convida portugueses e brasileiros a refletirem sobre a importância de reconhecer o valor das pessoas pelo que elas são, contribuindo para uma sociedade mais humana, justa e verdadeiramente multicultural.

Quando decidi construir uma nova vida em Portugal, cheguei com muitos sonhos, vontade de trabalhar e de crescer profissionalmente. Sempre acreditei que dedicação e honestidade seriam suficientes para conquistar meu espaço. Infelizmente, ao longo dessa jornada, vivi situações que me fizeram refletir sobre o preconceito que muitos brasileiros ainda enfrentam fora do país.
O episódio que mais me marcou aconteceu após abrir meu salão de beleza, onde toda a equipe era formada por mulheres brasileiras. Em pouco tempo, começaram a surgir denúncias infundadas, e a polícia chegou a ir ao local diversas vezes. Todas as inspeções comprovaram que não existia qualquer irregularidade, mas o desgaste emocional foi enorme. A sensação era de que precisávamos provar constantemente que estávamos ali apenas para trabalhar de forma digna.
Não acredito que todas as pessoas em Portugal sejam preconceituosas. Pelo contrário, conheci pessoas maravilhosas que me acolheram e fizeram parte da minha trajetória. No entanto, também vivi episódios que me fizeram sentir julgada simplesmente por ser brasileira. Esse sentimento acabou pesando nas minhas decisões, inclusive na escolha de não participar de um concurso de beleza para o qual havia sido convidada.
Minha intenção ao compartilhar essa experiência não é generalizar nem criar conflitos entre brasileiros e portugueses. Quero apenas dar voz a uma realidade que muitas pessoas vivem em silêncio, por medo ou vergonha de falar. O preconceito, seja ele qual for, deixa marcas profundas e afeta não apenas a carreira, mas também a saúde emocional.
Hoje sigo orgulhosa da minha história e do caminho que construí. Espero que meu relato incentive mais respeito, empatia e diálogo. Nenhuma pessoa deveria ser julgada pela sua nacionalidade, mas sim pelo seu caráter, pelo seu trabalho e pelos valores que carrega.
Ao longo dessa caminhada, vivi momentos muito felizes, mas também enfrentei situações que jamais imaginei passar. Descobri que, em alguns momentos, ser brasileira parecia falar mais alto do que quem eu realmente era. Em vez de enxergarem meu esforço, meu profissionalismo e meus valores, senti que muitas vezes fui julgada apenas pela minha nacionalidade.
Cheguei a me perguntar diversas vezes se o problema era comigo, até perceber que muitas outras brasileiras viviam experiências parecidas. Mulheres fortes, trabalhadoras, empreendedoras, que deixaram o Brasil em busca de uma vida melhor e, em alguns momentos, acabaram enfrentando olhares de desconfiança antes mesmo de terem a oportunidade de mostrar quem realmente são.
Hoje escolho falar sobre essa realidade não por ressentimento, mas por responsabilidade. O silêncio faz com que essas histórias continuem invisíveis. Espero que meu relato contribua para uma reflexão maior sobre a importância de combater qualquer forma de preconceito e lembrar que ninguém deveria ser reduzido ao lugar onde nasceu. Todos merecem ser vistos pelo que são, pelo que constroem e pelo bem que fazem ao próximo.
O meu nome é Lindiane Silva, mas sou conhecida nas redes sociais como Lindy Silva. Tenho 34 anos, sou brasileira, mãe da Rebeca Castro, de 6 anos, e vivo em Portugal há quatro anos.
Emigrar nunca foi apenas mudar de país. Foi recomeçar do zero, enfrentar desafios, adaptar-me a uma nova cultura e construir uma nova vida sem deixar de ser quem sou.
Ao longo destes anos, vivi momentos de conquista, mas também enfrentei dificuldades que muitos imigrantes conhecem: saudade da família, adaptação, preconceitos e a necessidade de provar diariamente a minha competência.

1.- Lindy, muitas pessoas falam sobre preconceito contra imigrantes, mas poucas têm coragem de abordar esse tema de forma aberta. Na sua opinião, por que essa realidade ainda existe em pleno século XXI?
Infelizmente, o preconceito ainda existe porque muitas pessoas têm medo do que é diferente. A falta de informação, os estereótipos e a desinformação alimentam ideias injustas. Acredito que a educação, o diálogo e o convívio são os caminhos para mudar essa realidade.
2.- Quando uma pessoa é julgada primeiro pela sua nacionalidade e só depois pelo seu caráter, quais marcas emocionais esse tipo de situação pode deixar ao longo do tempo?
Ser julgado pela nacionalidade antes do caráter pode deixar marcas profundas. A pessoa começa a duvidar do próprio valor, sente que precisa provar constantemente quem é e pode desenvolver insegurança, ansiedade e um sentimento de não pertencimento.
3.- Muitas vezes, brasileiros chegam a Portugal com sonhos, projetos e muita vontade de trabalhar. O que você gostaria que a sociedade portuguesa compreendesse sobre essa realidade?
Gostaria que compreendessem que a maioria dos brasileiros vem para Portugal em busca de oportunidades, crescimento e qualidade de vida. São pessoas trabalhadoras, honestas e que desejam contribuir para o país, respeitando sua cultura e suas leis.

4.- Você acredita que ainda existem estereótipos injustos associados aos brasileiros? Como esses preconceitos podem afetar oportunidades profissionais e pessoais?
Sim, ainda existem estereótipos que não representam a realidade. Quando uma pessoa é rotulada, ela pode perder oportunidades profissionais, enfrentar dificuldades para ser levada a sério e sofrer julgamentos injustos antes mesmo de mostrar seu potencial.
5.- Em algum momento você sentiu que precisou provar o dobro da sua competência apenas por ser brasileira? Como isso influencia a autoestima e a confiança de um imigrante?
Em alguns momentos, senti que precisava demonstrar mais para conquistar o mesmo reconhecimento. Isso pode afetar a autoestima, mas também me ensinou a confiar no meu trabalho e a não permitir que o preconceito definisse quem eu sou.
6.- O preconceito nem sempre acontece de forma explícita. Quais atitudes silenciosas ou comportamentos do dia a dia podem machucar tanto quanto uma ofensa direta?
O preconceito nem sempre vem através de ofensas. Olhares de desconfiança, piadas, exclusão, comentários sobre o sotaque ou questionamentos constantes sobre a capacidade de alguém também machucam e fazem a pessoa sentir que não é bem-vinda.
7.- Como influenciadora digital, você sente a responsabilidade de dar voz a brasileiros que passaram por experiências semelhantes, mas que muitas vezes têm medo de falar?
Sim. Acredito que quem tem voz também tem responsabilidade. Se a minha história puder inspirar outras pessoas a não desistirem dos seus sonhos e a denunciarem situações injustas, já sinto que estou contribuindo para uma sociedade melhor.

8.- Na sua visão, qual é a maior riqueza que os brasileiros levam para Portugal, tanto cultural quanto profissionalmente?
Os brasileiros levam criatividade, capacidade de adaptação, dedicação, alegria e muita vontade de trabalhar. Culturalmente, enriquecem a diversidade, e profissionalmente, contribuem em diferentes setores da economia.
9.- Você acredita que o convívio e o diálogo entre portugueses e brasileiros podem ajudar a desconstruir preconceitos? Como esse processo pode começar?
Sem dúvida. O preconceito diminui quando as pessoas se conhecem de verdade. O diálogo, a convivência e o respeito permitem perceber que temos muito mais em comum do que diferenças.
10.- Muitos imigrantes acabam escondendo parte da própria identidade por receio de serem discriminados. Na sua opinião, qual é o impacto disso na saúde emocional e no sentimento de pertencimento?
Esconder a própria identidade para evitar discriminação é muito doloroso. Isso pode gerar sofrimento emocional, isolamento e perda do sentimento de pertencimento. Ninguém deveria sentir vergonha das próprias origens.
11.- O respeito não deveria depender da origem, do sotaque ou do passaporte. O que ainda falta para que essa ideia seja verdadeiramente colocada em prática?
Falta mais empatia, educação e consciência. Precisamos aprender a conhecer as pessoas pelo caráter, pelas atitudes e pelos valores, e não pela nacionalidade, pelo sotaque ou pelo passaporte.

12.- Quais atitudes simples qualquer pessoa pode adotar para acolher melhor quem decidiu reconstruir a vida em outro país?
Pequenos gestos fazem grande diferença: tratar todos com respeito, evitar julgamentos, ouvir antes de formar opiniões, acolher quem chega e reconhecer que cada pessoa tem uma história diferente.
13.- Como diferenciar uma crítica legítima de um discurso que reforça preconceitos e discriminação contra uma comunidade inteira?
A crítica legítima é direcionada a comportamentos ou situações específicas. O preconceito acontece quando se atribuem características negativas a todo um povo ou comunidade. Generalizar nunca é justo.
14.- Você acredita que as redes sociais podem ser uma ferramenta para combater a xenofobia e promover mais empatia entre diferentes culturas? De que forma?
Sim. As redes sociais podem informar, aproximar culturas, dar voz às pessoas e combater estereótipos. Quando usadas com responsabilidade, tornam-se ferramentas poderosas para promover respeito e empatia.

15.- Se pudesse conversar diretamente com um jovem brasileiro que está pensando em emigrar para Portugal, que conselho daria para que ele enfrente os desafios sem perder sua essência?
Diria para se preparar, estudar, conhecer a cultura portuguesa, respeitar as diferenças e nunca perder sua essência. Haverá desafios, mas também muitas oportunidades de crescimento. A perseverança faz toda a diferença.
16.- Que mensagem você gostaria de transmitir aos portugueses que valorizam a diversidade e acreditam numa sociedade mais inclusiva e respeitosa?
Minha mensagem é de gratidão. Aos portugueses que acolhem, respeitam e valorizam a diversidade, deixo o meu reconhecimento. São essas atitudes que constroem uma sociedade mais forte, humana e justa para todos.
17.- Se houvesse uma oportunidade de criar um projeto social ou uma campanha nacional para aproximar portugueses e brasileiros, como você imaginaria essa iniciativa e quais valores ela deveria transmitir?
Criaria um projeto que promovesse encontros culturais, palestras em escolas, histórias de vida e ações comunitárias envolvendo portugueses e brasileiros. O objetivo seria mostrar que respeito, cooperação e diversidade fortalecem qualquer sociedade.
18.- Depois de todas as experiências vividas, qual legado você espera deixar para as futuras gerações de brasileiros que escolherão Portugal para estudar, trabalhar ou construir uma nova vida, mostrando que respeito, competência e dignidade nunca deveriam depender da nacionalidade?
Espero deixar como legado a ideia de que competência, honestidade e dignidade não têm nacionalidade. Quero que as futuras gerações de brasileiros sintam orgulho das suas raízes, trabalhem com dedicação e sejam reconhecidas pelo seu caráter e pelas suas capacidades, contribuindo para uma convivência baseada no respeito mútuo.

Entrevista realizada por Jaime Mybs a Lindiane Silva – Brasil Portugal
Entrevista autorizada por Lindiane Silva – Perumira – Jaime Mybs
Derechos Reservados a nombre de Lindiane Silva – Perumira – Jaime Mybs
Las entrevistas son permanentes y no se borran

